O Grupo Ria nasceu em 1993 com um grupo de atores que já haviam trabalhado juntos em outras produções e juntaram suas experiências para desenvolver um projeto.
O RIA nasceu em 1993, com um grupo de atores que já haviam trabalhado juntos em outras produções e juntaram suas experiências para desenvolver um projeto. Começaram com uma pesquisa sobre a Idade Média e descobriram que existiu um homem, São Francisco de Assis (que participou do 4.o Concílio de Latrão, que acompanhou a 5.a cruzada a mando do Papa Inocêncio III…) Enfim, contaram a vida de Francisco de Assis no espetáculo “Francisco – Depois do Outono” em 1993/4. Isso despertou seu interesse pela pesquisa. Foi quando resolveram pesquisar a nossa literatura. Começaram por Machado de Assis e montaram Dom Casmurro, Quincas Borba, O Alienista e Memórias Póstumas de Brás Cubas. O resultado dessa pesquisa sobre Machado de Assis resultou em uma montagem sobre o autor: O Bruxo no Espelho.
Hoje o grupo tem 22 pessoas envolvidas no projeto, entre atores, técnicos, equipe de segurança, bilheteiros, costureiras, figurinistas e cenógrafos. O Grupo Ria trabalha dividindo seu tempo entre ensaios, apresentações, pesquisas e discussões literárias com os convidados.
AUTO DA BARCA DO INFERNO O Auto da Barca do Inferno é um espetáculo marcado por duas barcas que conduzem os mortos, conforme seus comportamentos em vida, ao Paraíso ou ao Inferno. Ou seja, Anjo e o Diabo decidem o futuro das personagens. Gil Vicente, com esta obra, usa o teatro como fonte de moralidade e retrata a sociedade portuguesa do seu tempo, ilustrando seus vícios e dramas. Os tipos vicentinos assumem um caráter simbólico, não sendo identificados por nomes e sim pelas atividades que exercem ou por seu traço social. O Diretor José Paulo Rosa fez uma tradução da obra para o português falado no Brasil para facilitar entendimento do espectador, porém, sem deixar de apresentar todas as personagens da obra, obedeceu à musicalidade, não deixou de apresentar trocadilhos, ditos populares, além dos elementos cômicos, características marcantes do autor do diário íntimo de Bentinho, que traz de volta os mortos para que lhe contem o futuro. Na montagem, o diretor teve o cuidado de manter a fidelidade à obra.
MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS
Foi com Memórias Póstumas de Brás Cubas que Machado de Assis introduziu o Realismo no Brasil a partir de 1881. Machado de Assis já era, no século XIX, um escritor do século XX e se eternizou. O nosso autor sempre trabalhou com temas comuns e, com seu estilo, entra no íntimo do ser e extrai os temas obscuros: a crueldade, o bem e o mal, a morte, a ingratidão, o adultério, o egoísmo e a vaidade. Ele trabalha as ações humanas com uma maestria única e inconfundível. Nessa obra, Brás Cubas narra suas memórias e inicia dizendo que o sepulcro é um outro berço. E mistura morte, vida e sua ideia fixa para salvar a humanidade com seu emplasto.
Na adaptação para o teatro, o diretor colocou em cena dois Brás Cubas, o morto e o vivo. A narrativa é dada pelo morto que acompanha o desenrolar de sua vida no espetáculo e, nesta condição, não deixa de emitir suas opiniões sobre a hipocrisia humana com a ironia característica de Machado de Assis.
O CORTIÇO
Considerado o melhor romance naturalista da literatura brasileira, o livro de Aluísio Azevedo traça um vasto painel da sociedade a partir do retrato impiedoso de um cortiço com seu variado leque de tipos urbanos. O Cortiço, sua obra prima publicada em 1890, não é uma ficção com preocupações sociais. Ela é uma obra de visão coletiva e traça um retrato implacável da sordidez e dos vícios humanos. No final do século XIX, estava na moda a ideia de que Arte e Ciência deveriam se unir no esforço comum de observar a natureza e compreender seus fenômenos. Essa concepção também estava presente na Literatura.
Da montagem: Na montagem, o diretor colocou doze atores representando grande parte das personagens, não esquecendo que o protagonista do romance é o próprio cortiço. Contudo, dentro desse painel em constante movimento, se destacam dois destinos: o de João Romão e o de Jerônimo.
VIDAS SECAS
O “sentido da vida” ou os porquês de tantas desgraças são os temas pelos quais tudo de desenrola, aliás o próprio título da obra endossa esta tese: seca, na linguagem popular, segundo o Aurélio, tem o significado de “má sorte” ou azar, portanto, Vidas Secas tem a inteligência de vidas sem sorte. “Vidas Secas” é o último romance de Graciliano Ramos e o único narrado em terceira pessoa. “O narrador não quer identificar-se com o personagem, e por isso há na sua voz uma certa objetividade de relatar. Mas quer fazer às vezes do personagem, de modo que, sem perder a própria identidade, sugere a dele. É como se o narrador fosse não um intérprete mimético, mas alguém que institui a humanidade de seres que a sociedade põe à margem, empurrando-os para a fronteira da animalidade. Aqui, a animalidade reage e penetra pelo universo reservado, em geral, ao adulto civilizado.”
SAGARANA
Sagarana é uma coleção de nove histórias da carochinha para adultos e funcionam como parábolas, limpas de preconceitos, saindo das capitais e indo para o cafundó do sertão: “na panela do pobre tudo é tempero” – “Eu quase que nada não sei, mas desconfio de muita coisa”. Histórias escritas todas a lápis, em sete meses de exaltação e deslumbramento. Há nelas a criatividade “roseana” de criar, inventar e conceber palavras e expressões que só poderiam ser ditas por viventes de um país jovem em que a língua é capaz de mil evoluções. Guimarães Rosa, amealhou histórias de uns, ouviu e guardou aventuras de outros e descreveu situações que eram reais, crenças, costumes e registros do homem simples do sertão mineiro. Para isso, apoiou-se na língua, companheira e amante, buscando a precisão, a milimétrica, a metafísica e o espírito que habita por trás de tudo, aquela sabedoria grandiosa, natural e característica do popular.
A preocupação de João Guimarães Rosa, com sua obra, era expor a sua concepção de mundo, partindo do modo simples de viver e indo ao encontro do eterno, portanto, sua obra não é apenas regional, já que sua preocupação tem caráter universal.
O estilo de Guimarães Rosa está aqui representado de uma forma fiel, o amor à língua, à palavra “arte”: “além dos líquidos e sólidos, porque não tentar trabalhar a língua em seu estado gasoso”. Guimarães escolheu o sertão de Minas Gerais, mas suas histórias poderiam acontecer na China ou em qualquer outro lugar porque sua palavra é universal e ultrapassa o território do idioma. Ele usa o espaço do interior mineiro, lá se veem bem as relações humanas e a ação do destino. Lá se vê bem o rio cair na cabeceira ou contornar a montanha, e as grandes árvores estalarem sob o raio, e cada talo do capim humano rebrotar com a chuva ou se esturricar com a seca.
Das nove histórias, o diretor e adaptador José Paulo Rosa escolheu quatro para levar ao palco, uma síntese do que seria todo o espírito de Guimarães em Sagarana: Conversa de Bois, Sarapalha, Corpo Fechado e A hora e a vez de Augusto Matraga.
IRACEMA
Publicado em 1865, Iracema, obra de José de Alencar, faz parte da tríade dos romances indianistas (juntamente com O Guarani e Ubirajara). É considerado um poema em forma de prosa, com características épicas, em que tanto Martim como Iracema são heróis. Iracema, na obra, representa a cultura indígena e possui uma postura submissa a Martim, representando assim o ideal de submissão que o índio teria ao branco. Martim traz a figura do branco colonizador, que é também guerreiro, assim como o índio.
O primeiro encontro dos dois se dá quando Iracema está repousando e, assustada por Martim, lança uma flecha que atinge o guerreiro. Ele não tem nenhuma reação e acabam indo juntos até a tribo de Iracema, chamada de tabajara. Martim é recebido pelo Pajé que o convida a ficar na tribo, ele recusa e decide ir embora. Iracema vai atrás dele, pedindo para ele voltar. Martim aceita. Começa, nesse momento, uma troca de amor mútuo. Acabam gerando um filho. O romance de Martim e Iracema tem como metáfora a criação do Ceará. Através da história, o autor cria uma lenda de como o Estado teria sido criado. Pois quando Iracema morre, ela é enterrada por Martim e seu amigo Poti à beira de um coqueiro de que ela gostava muito. Diante desse coqueiro, sempre se ouvia um lamento, era o lamento de sua ave de estimação, que sentia sua falta. Assim, o canto da jandaia se chamava de Ceará, onde ali foi fundada. Martim: representa a cultura colonizadora. Herói, participa de várias lutas em defesa do seu povo. Fica dividido entre a sua cultura e a de Iracema.
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
DOM QUIXOTE “…Tanto aquelas leituras ocuparam seu tempo, passava noites em claro e dias escuros, pouco dormindo que acabou secando seu cérebro, perdendo o juízo. Então, encheu-se de fantasias e reuniu em sua mente imaginações de um cavaleiro andante.”
Desafios, batalhas, amores, tormentas e disparates impossíveis, assim começa nosso Dom Quixote de La Mancha.
Dom Quixote usa a fantasia de herói para buscar batalhas, enquanto Sancho Pança, seu fiel escudeiro, que nada mais é do que um criador de porcos, tenta puxá-lo para a realidade. A história é muito legal e engraçada, com aventuras hilárias com supostas lições de moral. O protagonista do espetáculo é Dom Quixote, um velho fidalgo castelhano que perdeu a razão por muita leitura de romances de cavalaria e pretende imitar seus heróis preferidos. O espetáculo apresenta as suas aventuras em companhia de Sancho Pança, seu fiel amigo e companheiro, que tem uma visão mais realista. Dom Quixote se envolve em uma série de aventuras, mas suas fantasias são sempre desmentidas pela dura realidade. O efeito é altamente humorístico. O encanto da obra nasce do descompasso entre o idealismo do protagonista e a realidade na qual ele atua.
Quixote teria sido um herói a mais nas crônicas ou romances de cavalaria cem anos antes de sua existência. Sua loucura está fora de seu tempo. Isso permitiu o autor Miguel de Cervantes fazer uma sátira de sua época, usando a figura de um cavaleiro medieval em plena Idade Moderna para retratar uma Espanha que, após um século de glórias, começa a duvidar de si mesma.
O Grupo RIA, sempre com a preocupação e a responsabilidade de fidelidade às obras, vai para mais um grande desafio; agradar uma plateia ainda mais exigente – o ensino fundamental.
Assim nosso diretor geral José Paulo Rosa confiou a direção do espetáculo ao promissor diretor Zé Alberto Martins que, com maestria e juventude, deu um tom romântico e, com dois músicos ao vivo, dá um toque especial, como uma brincadeira de desenho animado. A cenografia, figurino e adereços foram confiados ao competentíssimo Ronney Thiago e sua equipe. Além da qualidade de intérpretes, que é uma marca registrada do Grupo RIA.
O ALIENISTA
Existem na história da literatura algumas obras que ganham personalidade própria, quase independem de seus autores. São obras inquestionáveis que atingem quase todos os leitores com a mesma intensidade. Esse é o caso de “O ALIENISTA”, de Machado de Assis. Incluído em Papéis Avulsos, livro de contos publicados em 1882, essa narrativa é uma das mais lidas e uma das que mais tem aguçado o interesse do público das mais variadas idades. De princípio podemos dizer que “O Alienista” consiste num “texto estranho”, inverossímil, isto é, não condiz com a verdade da vida, não é possível de acontecer. Como seria possível, numa cidade como Itaguaí, quase a totalidade de sua população ser louca? Ou ainda: como pode uma única pessoa, Dr. Bacamarte, adquirir tanto poder a ponto de conseguir prender quatro quintos da população num asilo de loucos? Machado de Assis, o “inventor” dessa intrigante narrativa, traz o tema “loucura” focalizada de uma maneira que acaba por deslocar todas as consciências consideradas normais e por questionar a própria condição humana.
MAYOMBE
Publicado originalmente em 1980, Mayombe foi escrito durante a participação do escritor angolano Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos (Pepetela) na guerra de libertação de Angola na década de 70. Recompõe o cotidiano dos guerrilheiros do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) em luta contra as tropas portuguesas. O romance, inovador, aborda as ações, os sentimentos e as reflexões do grupo, e as contradições e os conflitos que permeavam as relações daqueles que buscavam construir uma nova Angola, livre da colonização.
Foco narrativo
A obra é organizada em seis capítulos nos quais há variação do foco narrativo – um narrador onisciente e onipresente se intercala com as personagens, guerrilheiros do MPLA, no papel de narrador da história. Com isso, Pepetela demonstra que nem mesmo a revolução se organiza como um conjunto, sendo enxergada de forma diferente e conflitante pelos seus próprios membros. Cada um desses observadores/participantes, com origem, ideologia, visão e propostas próprias, possuem também ideais distintos que os impedem de lutar pela mesma unidade libertadora.
Tempo
“O Mayombe começa com um comunicado de guerra. Eu escrevi o comunicado e… o comunicado pareceu-me muito frio, coisa para jornalista, e eu continuei o comunicado de guerra para mim, assim nasceu o livro”, escreve o autor numa obra híbrida entre o romance e a reportagem.
Mayombe, nome de uma região da África, é uma narrativa em tempo cronológico que analisa profundamente a organização dos combatentes do MPLA, lançando luz às dúvidas, que também eram as do autor, sobre as contradições, medos e convicções que impulsionavam os guerrilheiros em busca de liberdade no interior da densa floresta tropical. Eles confrontam-se não só com as tropas colonizadoras portuguesas, mas também com as diferenças culturais e sociais que procuram superar em direção a uma Angola unificada e livre.